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Uma sobrevivência mergulhada no mar

Uma sobrevivência que resulta do peixe. Aliás, não fosse o lugar se chamar Bairro do Pescador. A pesca e a comercialização do peixe dominam o dia-a-dia. A famosa Rua da Salga é, digamos, a grande referência. As capturas são enormes. Afinal de contas o mar fica mesmo ao lado. O Cacuaco está para o peixe como a Cahama para a carne. A vila cresceu com gente de vários grupos étnicos, predominantemente ovimbundu. Lá se fixaram há muitos anos onde constituíram famílias. Tiveram contacto com o mar e se tornaram filhos de Cacuaco. Logo, “filho de peixe, peixinho é”.

Uma sobrevivência que resulta do peixe. Aliás, não fosse o lugar se chamar Bairro do Pescador. A pesca e a comercialização do peixe dominam o dia-a-dia. A famosa Rua da Salga é, digamos, a grande referência. As capturas são enormes. Afinal de contas o mar fica mesmo ao lado. O Cacuaco está para o peixe como a Cahama para a carne. A vila cresceu com gente de vários grupos étnicos, predominantemente ovimbundu. Lá se fixaram há muitos anos onde constituíram famílias. Tiveram contacto com o mar e se tornaram filhos de Cacuaco. Logo, “filho de peixe, peixinho é”.
É o caso de Joana Kumbi, mais de 50 anos, que ainda jovem saiu de Malange. O destino seria Luanda, cidade próxima, mas viu em Cacuaco o local adequado para se fixar. Arranjou compromisso. Da sua relação com um pescador teve 3 filhos. Com a morte do companheiro, juntou-se a outras mulheres que ganhavam a vida na venda de peixe. Cacuaco possui um mar abundante em peixe.
Elas tornaram-se processadoras do pescado e fazem-no de maneira arcaica, em condições de asseio de bradar aos céus. Sobre um “sol de praia”, agradável para banhistas, andando pela Rua da Salga, a nossa viatura foi dar até ao fim desta. Parámos junto de um Estaleiro. Soubemos que é gerido por chineses. A bomba de combustível indicava-nos de que era também um posto de abastecimentos das embarcações a motor. Ao longe, lá nas profundezas, divisávamos algumas. Ou estariam aí a pescar ou a caminho dos mares do Soyo, como confirmou o nosso cicerone.
Joana Kumbi e companheiras estavam empenhadas no seu trabalho. Próximo do Estaleiro, havia buracos enormes feitos na terra barrenta. Num destes, elas (as processadoras do pescado) retiravam sardinha miúda que havia passado a noite no chamado “tanque” improvisado. Depois de o sal entranhar, retiram e colocam-na a secar. O nosso guia não se simpatiza com este método de secagem porque, segundo ele, a água salgada usada e que acrescentam mais sal, voltam a repetir nesta a mesma operação. Convém não falar da invasão de moscas e do lixo espalhado na “orla da praia”.
Soubemos que o sal nem sempre é iodizado e que pode criar consequências aos consumidores, provocando o bócio, doença sobejamente conhecida. Quando a lambulinha ou o galo (peixinhos) secos não são comercializados no concorrido mercado do mundial (Cacuaco), revendedores levam-nos em grandes quantidades para as províncias do interior e também aos Congos. Pelo que constatámos, o ambiente de sanidade é precário. Faz recordar as cozinhas sujas de certos restaurantes, e como são fechadas, degusta-se o que servem sem que se desaprove. Como diz o ditado: “O que os olhos não vêm o coração não sente”. No caso, a boca aceita.
O peixe é atirado para o chão, suportado por redes, folhas de palmeiras ou capim. Perguntámos se os cães não aproveitam para o festim? Ironicamente o nosso guia, Alexandre António, respondeu que quando há fartura, até os olhos rejeitam. A solução seria fazer tarimbas para que o peixe secasse num plano mais alto, à semelhança do que se faz na Baía Farta e Tômbwa. Enquanto se aguarda por esta e outras, visando melhorar as condições higiénicas e de transportação, a vida continua e Joana Kumbi, Teresa Mungala, Beatriz Catengue e demais peixeiras mantêm-se firmes na produção de motivos para a sua satisfação.
Ao sairmos, aproveitámos comprar uma macoa (na foto) que a peixeira nos fez a 3 mil. Sinceramente, achamo-la cara. Esta história de que o carro faz aumentar o preço deve ter mesmo alguma razão. Mas é bom peixe (fresco) para um bom caldo depois de uma noite de sexta-feira… ou mesmo para um grelhado para quem saiba temperar à maneira Osvaldo Gonçalves, o apreciador de lambula e que já viveu no Bairro dos Pescadores, saído da Ilha de Luanda. Ele defende que não se come mais do que uma. Verdade ou mito?! Eu, em particular, já comi mais do que uma. Quentes e grelhadinhas. Correu tudo bem.
Nas imediações da Administração Municipal há de tudo um pouco relativamente à actividade comercial. À semelhança do Mártires de Kifangando, há “cantinas do mamadou”, bancos, o “há sopa e almoço” em dizeres pendurados à porta e o mercado da marginal local, verdadeiro espaço do lúdico, onde tudo parece valer. Humm…
Ao deixarmos a Rua da Salga, as chatas à beira-mar que dançavam ao movimento das ondas continuavam a servir de “brinquedo” para os pequenos. Lá ao longe, se há uma faixa de 4 milhas, 15 ou 20, se pesca artesanal, se semi-industrial ou industrial, a verdade é que os navios de tonelagens se mantinham no alto mar. Não sabemos se pescavam, ou se se preparavam para pesca mais distante. Entretanto, passivamente, as unidades de conservação perfiladas na Salga, inoperantes a maioria, fotografavam a hora da largada.