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O nosso satélite

Mais um vez dediquei algum do meu tempo, a procurar perceber o valor que o Angosat-1 trará para Angola.
Li e reli vários artigos, noticias e paginas de internet. Conclui que os argumentos mais repetidos em defesa do nosso satélite são os seguintes:

Mais um vez dediquei algum do meu tempo, a procurar perceber o valor que o Angosat-1 trará para Angola.
Li e reli vários artigos, noticias e paginas de internet. Conclui que os argumentos mais repetidos em defesa do nosso satélite são os seguintes:
1. Aumentar a cobertura nacional, melhorando serviços de telecomunicações e tecnologias de Informação com destaque para as zonas mais recônditas do pais: aumento do negócio dos operadores, inclusão digital.
2. Possibilitar os operadores nacionais de telecomunicações pagarem segmento espacial em kwanzas.
3. Arrecadar divisas para o país, por via da venda de segmento espacial a operadores de telecomunicações estrangeiros
4. Propiciar a criação de pequenas empresas, particularmente nas zonas mais recônditas.
5. Criação de competências nacionais no ramo da engenharia e tecnologia espacial.
Desde 2002 que os operadores de telecomunicações em Angola utilizam intensamente comunicações por satélite.
Várias Hub de VSAT foram instaladas em Angola e entraram em operação. Este facto foi o grande catalizador da expansão da telefonia celular e da rede bancária por todo o pais.
Com excepção de alguns periodos, quando havia pouca oferta de segmento espacial (capacidade de satélite) para cobrir Africa em geral, devido a grande demanda resultante da expansão dos serviços movéis de telecomunicação, a disponibilidade dos serviços de satélite por todo o pais é um facto.
Hoje, qualquer operador de telecomunicaões em Angola pode oferecer serviços de satélite em todo o país e até no estrangeiro.
O principal problema dos projectos que visavam levar as comunicações aos locais mais recônditos de Angola nunca foram os satélites, mas sim a parte terminal nas localidades.
A falta de energia eléctrica, a falta de suporte operacional e o baixo nivel dos operadores dos sistemas.
É um facto que as comunicações por satélite têm a mais-valia da rápida implementação. Com elas pode-se rápidamente disponibilizar serviços em locais isolados. Porém, são serviços caros e cuja qualidade é incomparavelmente inferior aos serviços terrestres (por fibra óptica ou microondas).
Por esse motivo, depois do “boom” resultante da extensão das redes de telefonia movél, os operadores de telecomunicações começaram a investir em redes de transmissão por fibra optica e microondas, usando os satélites apenas em locais muito remotos e como “backup”.
A infra-estrutura de transmissão terrestre é o caminho primário nas redes de telecomunicações actuais, sendo o satélite apenas um complementar.
A possibilidade de pagamento em kwanzas do segmento espacial poderá ser um dos valores do Angosat. Porém, será imperioso uma política de preços muito atractiva.
Os custos operacionais em Angola são de tal ordem elevados que condicionam os preços. Basta olharmos para os preços que os operadores angolanos dos cabos submarinos de fibra óptica fazem, comparando com operadores noutros paises.
A alternativa seria algum tipo de subsidio aos preços. Porém, na actual conjuntura económica de Angola, parece-me pouco viavel.
A pretensão de venda de serviços a operadores de telecomunicações no estrangeiro, parece-me bastante âmbiciosa. Para além da questão dos preços, existe hoje uma oferta excedentária de segmento espacial para cobrir África.
Outro aspecto que pesará, certamente, a desfavor da pretensão de venda dos serviços do Angosat1 no estrangeiro, é a falta de alternativa (“backup”), no caso de ocorrência de algum problema no mesmo.
Angola terá apenas o Angosat-1, enquanto que existem ofertas de serviços de operadores que têm uma frota de satélites, dando-lhes alternativas em caso de falha em um dos satélites.
Algumas pessoas certamente se lembrarão do caso da satélite israelita AMOS 5 que, há cerca de ano e meio, saiu de orbitra subitamente. Alguns anos atrás foi o caso do desaparecimento da satélite nigeriano.
A criação de competências nacionais nos ramos da engenharia e tecnologias de informação com o Angosat-1 é um argumento que parece-me apenas político.
Outros projectos menos onerosos e mais rentáveis, potenciam muito mais o conhecimento dos quadros nacionais.
Apesar de tudo, é dinheiro público já investido, razão pela qual torço, como angolano, para que o Angosat-1 seja um sucesso.