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"Gastámos 1,5 mil milhões em projectos falhados"

Depois da guerra o país investiu muito dinheiro em perímetros irrigados, funciona um ou outro. Fernando Pacheco diz acreditar que o desenvolvimento da produção agrícola e pecuária deve ser alinhado com a política de desconcentração e descentralização do país, de modo que haja sustentabilidade. Não acredito que isso se possa fazer apenas ou sobretudo com grandes projectos a partir de Luanda, sejam públicos ou privados.

Depois da guerra o país investiu muito dinheiro em perímetros irrigados, funciona um ou outro. Fernando Pacheco diz acreditar que o desenvolvimento da produção agrícola e pecuária deve ser alinhado com a política de desconcentração e descentralização do país, de modo que haja sustentabilidade. Não acredito que isso se possa fazer apenas ou sobretudo com grandes projectos a partir de Luanda, sejam públicos ou privados.

Angola já foi auto-suficiente em alguns produtos agrícolas. O que terá falhado depois da guerra para o país não regressar aos tempos áureos na produção agrária?
Falhou sobretudo uma visão correcta sobre o que é desenvolvimento. Caiu-se na armadilha da “doença holandesa”, isto é, da excessiva dependência de um recurso mineral, no nosso caso do petróleo e esqueceu-se que a ideia que vinha do passado “a agricultura é a base e a indústria o factor decisivo do desenvolvimento de Angola” mantém-se actual, não apenas para diversificar a economia, mas também para que essa diversificação fosse sustentada e gerasse emprego cada vez de maior qualidade. Há uma verdade que permanece escondida: o país gastou mais 1,5 mil milhão de dólares com projectos megalómanos cujos resultados são quase inexistentes em termos de produção e emprego, com a agravante de as infra-estruturas, sempre sobredimensionadas, estarem a degradar-se.

Que medidas devem ser tomadas para dinamizar a produção agrária e diminuir-se a importação?
Avaliar os erros cometidos, analisar correctamente a realidade e definir políticas mais sensatas, que tenham em conta as características dos nossos agricultores e empresários de todos os sectores envolventes da agricultura. De que adianta termos infra-estruturas e equipamentos caros se não soubermos tirar partido deles? Há quem pense que a solução está na aposta tecnológica, como, por exemplo, o regadio. Claro que o regadio proporciona rendimentos elevados, mas é algo que exige muito dinheiro para investimentos e muito conhecimento, duas coisas que não temos, uma por causa da crise, outra por causa das más políticas dos últimos anos.

Durante a campanha agrícola 2015-2016 foram plantadas mais de quatro milhões de hectares de terra. Este indicador é positivo?
Não pode ser positivo porque o importante não é apenas cultivar, mas sim a produtividade das culturas. As nossas são muito baixas, reflexo do que disse atrás. Para dar uma ideia, a produtividade média de café a nível mundial é de três toneladas por hectare, mas a nossa situa-se em 0,3. Estima-se que cerca de 80 por cento dessa área cultivada é trabalhada com enxada. Isso é muito mau para um país que teve os rendimentos petrolíferos que nós tivemos até 2014.

A petrolífera Francesa Total anunciou a construção da fábrica de adubos e fertilizantes na província do Zaire. Quer comentar?
Um dos maiores erros da nossa política nos últimos 15 anos foi não termos realizado projectos estruturantes capazes de alavancar a agricultura, como, por exemplo, a produção de sementes e fertilizantes. Mas é preciso ter cuidado. Havia alguns projectos nos anos anteriores à independência. Temos de analisar o que efectivamente nos interessa e não ir a reboque de propostas que nem sempre vão ao encontro das nossa necessidades. Seja qual for a oferta, ela deve ser amplamente, repito, amplamente, discutida para não se cometerem erros, como foi o da refinaria do Lobito.

Como avalia a intervenção do sector privado neste segmento?
O sector privado que deve ter papel relevante, devendo as instituições públicas concentrar-se na orientação, na elaboração de políticas e seu acompanhamento e avaliação e na criação de um bom ambiente de negócios para os empresários e empreendedores na sua diversidade e dimensão.

A produção e exportação da banana já é um facto. O país pode exportar outros produtos além da banana?
Sobretudo café, uma cultura esquecida, outro tremendo erro. Pode ainda exportar frutas tropicais diversas, como ananás, maracujá e outras. Desde que se criem condições para produzir e exportar.

Como avalia as políticas de formação de quadros para o sector da agricultura?
É também muito deficiente, quer na concepção, quer na atractividade. Temos muitos institutos médios com má qualidade, na esteira dos problemas educacionais do país em geral, quer em termos dos currículos, que não respondem à realidade e ás necessidades, quer depois na possibilidade de obtenção de emprego.