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Angola pode tirar vantagens do conflito?

Os entrevistados concordam que as economias, apesar de separadas geograficamente, estão interligadas e podem criar efeitos de contágio capazes de criar situações que travam o crescimento umas das outras

A decisão de Donald Trump de impor tarifas proteccionistas sobre o aço e o alumínio, quer a China, quer os países da União Europeia, que provocou a chamada guerra comercial, é ponto assente que vai afectar também as economias emergentes de África, na qual Angola se destaca como uma das que mais apresenta potencial de crescimento, apesar do actual contexto macroeconómico pouco favorável para a sua conjuntura.
Na verdade, estas economias podem ser afectadas de forma directa ou indirecta embora haja divergências de pontos de vista. Mas Angola pode tirar partido desta situação e aproveitar ser uma alternativa na vende de matéria-prima, uma vez que a China e os Estados Unidos da América (EUA) já são parceiros privilegidos de Angola, com o pretróleo, gás, a madeira e outros a liderarem os principais produtos de exportação para estes países.
O JE procurou ouvir alguns leitores com quem abordou a questão da guerra comercial entre os EUA e a China, bem como as suas consequências para a economia africana e a Angola em particular. Sobre esta situação, houve convergência de opiniões. Todos concordam que as economias, apesar de estares afastadas geograficamento, há sempre uma interligação e os efeitos podem ser sentidos por todos de uma ou de outra forma.
Por exemplo, Weker da Costa, funcionário público, é de opinião que se África vai sofrer e Angola não tem como não sentir o abalo, ainda que de forma pouco notável. “A África é dependente em quase tudo e Angola não hoje à regra. Compramos quase tudo e muita coisa vem destes países, sobretudo da China. Pouco ou nada exportamos, além de matéria-prima”, disse.
Já Luís Carlos, professor, é de opinão que há vantagens nessa guerra. A África e Angola em particular podem aproveitar para consolidar as sua posições, com o aumento da venda de produtos que possivelmente a China recorre aos EUA e vice-versa. “É preciso tirar partido deste conflito para reavaliar os pontos positivos e negativos, assim como alterar muitos acordos firmados no passado. A diversificação da economia é a chave para a competição internacional”, afirmou.
Por outro lado, Dália Regina, estudante universitária, salienta ser necessário olhar para a industrialização do continente e do país em especial para se ir alterando os paradigmas da dependência. “Temos que apostar forte na produção interna para adquirirmos capacidade de exportação de produtos que estes dois países comercializam um ao outro, isso é importante. Temos que ser uma boa alternativa no mercado internacional”, frisou.
O mercado africano e o nacional é maioritariamente consumidor, mas tem um imenso potencial, o que é preciso, por sua vez, é o desenvolvimento das instituições e políticas que promovam a economia de consumo e de produção industrial. É difícil as economias africanas não sentirem os efeitos deste conflito, porque essas medidas para travar os seus efeitos são difíceis de serem implementadas devido a diversos motivos, entre os quais a não industrialização do tecido económico africano. “Por enquanto, os efeitos são pouco visíveis e nulos até certo ponto. É preciso esperar mais tempo para auferir as consequências. Talvez nem soframos o que estamos a pensar”, concluiu Luís Carlos.

Efeito da guerra comercial já afectam os sectores automóvel e aeronáutico
e podem estender-se para outras áreas nos próximos meses do ano em curso

Os efeitos da guerra comercial entre EUA e China já se fazem notar nas contas de algumas grandes empresas. A Daimler torna-se na primeira empresa global e de grande visibilidade a admitir lucros inferiores no final do ano afectada pela tensão entre as duas maiores economias mundiais.

Mais de mil milhões de C-Class sedans, GLS e GLE crossovers que a Daimler exportou no ano passado tiveram a China como destino, e estão agora sujeitos às tarifas impostas por Pequim. A fabricante automóvel acredita que menos clientes estarão interessados em comprar Mercedes-Benz tendo em conta a carga imposta pelas tarifas.
O aumento da tensão entre os Estados Unidos e a China já há muito que afecta o desempenho dos mercados, ao provocar receios entre os investidores. E esta guerra não se confina às duas grandes potências.
O escalar das tensões comerciais está a causar forte pressão em Wall Street e com isso, um dos sectores que mais sofre com as negociações no vermelho é Boeing, a ser uma das fabricantes mais afectadas, a par da AirBus, que viu as suas acções a se desvalorizar em 1,5 por cento para perto dos 331 dólares por cada acção. Há outra empresa em destaque nesta encruziliada, entre as quais a Caterpillar, que derrapou 1,25 por cento para próximo dos 134 dólares.
Esta semana é a vez da brasileira Embraer, que deveria usar a aprovação da venda à Boeing como forma de pressão sobre o governo Donald Trump, mas que por conta desta situação, muitas decisões estão condicionadas e aguardam a melhoria e recuperação do mercado.
Do lado das multinacionais tecnológicas, as fabricantes de processadores estão a sofrer perdas, com a Intel a cair 1,33 por cento para cerca de 49 dólares e a Qualcomm a recuar 1,14 por cento para 55,48 dólares nesta sessão. Neste campo, pesa mais o escalar das tensões comerciais com a China do que manter o conflito actual.
Até a Dell Technologies, a maior tecnológica de capital privado do mundo, tornou pública a intenção de dispersar acções em bolsa, de acordo com a Bloomberg, devido aos efeitos evidentes da guerra comercial vigente.
Na verdade, enquanto durar essa tensão entre os dois Estados, as bolsas norte-americanas esperam abrir no vermelho, face a renovados receios em torno deste conflito sem fim à vista, com consequências adversas e inesperadas.