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África deve apostar na geração de empregos

A África deve aproveitar as oportunidades de criação de mais postos de trabalho e reposicionar a força jovem no seu desenvolvimento económico, através da transformação de apenas 5,0 por cento dos minerais naturais do seu subsolo.

De acordo com um recente estudo apresentado em relatório pelo Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), esta aposta resultaria na geração de novos cinco milhões de empregos e permitiria superar os actuais 30 mil milhões de dólares que gasta, anualmente, com a importação de alimentos processados.
O relatório económico sobre o continente em 2016 situa a taxa de crescimento nos 3,7 por cento, mas aponta que não se registou crescimento nas áreas de trabalho intensivo.
Para o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), atribui-se ao ser humano “activo maior”, visando o desenvolvimento do continente.
As projecções fixam que, actualmente, a densidade populacional africana em 1,2 mil milhões de habitantes, em 2015, com projecção para alcançar 1,7 mil milhões em 2030 e 3,0 mil milhões em 2063.
A agência da ONU estima que se vai registar um aumento de cerca de 46 por cento de mão-de-obra em África entre 2015 e 2060. Este aumento será constituído por jovens da faixa etária entre os 15 e 34 anos, atingindo uma média de 12,1 milhões por ano.
Com uma rápida transformação das faixas etárias e um declínio nos rácios de dependência, o estudo da Fnuap diz existir um potencial para o crescimento económico impulsionado pelo aumento das receitas provenientes do trabalho e do incremento das poupanças.
“Dada a actual estrutura demográfica de África, com uma taxa de população jovem, existe potencialidade significativa para a transformação económica, além do simples incremento do número e porção da população em idade activa, o desenvolvimento e a implementação de políticas favoráveis na educação e a saúde, incluindo o planeamento familiar”, lê-se.

Criação do ambiente económico

A criação de um ambiente macroeconómico que facilite a criação de postos de trabalho e o acesso ao emprego decente asseguraria o aumento na força de trabalho produtivo e resultaria no crescimento cada vez maior das receitas per capita.
Conforme a declaração do Fnuap, o aproveitamento do dividendo demográfico constitui uma oportunidade para edificar a resiliência dos jovens e superar as causas fundamentais subjacentes aos grandes desafios que a África enfrenta, incluindo as migrações forçadas.
O dividendo demográfico continua a ser central para a concretização da aspiração da transformação económica do continente, que passa, necessariamente, por investimentos apropriados, a dinâmica populacional que desempenha um papel importante em facilitar o crescimento elevado e inclusivo, a redução da pobreza, conforme revela o roteiro da União Africana sobre o “Aproveitamento do Dividendo Demográfico, através de Investimentos na Juventude”.

60 por cento jovens

A juventude que representa em Angola 60 por cento da população, um número extensivo em todo o continente, com uma média de idade entre os 15-24 anos, constitui cerca de 37 por cento da população em idade reprodutiva.
Por forma a superar a taxa de desemprego entre os jovens e a disparidade nas qualificações em África, a participação da força de trabalho deve ser incrementada com proporcionalidade de oportunidades de emprego.
Nesse sentido, considera a necessidade de mudança de paradigma na medida em que os jovens devem ser capacitados com competências empresariais necessárias para lhes permitir criar as suas próprias empresas.
O alerta para os governos vai no sentido de se criarem ambientes político, comercial, financeiro e económico favoráveis, através do desenvolvimento e da implementação eficaz de medidas que promovam os mercados de trabalho e que facilitem o desenvolvimento do sector de trabalho intensivo, capaz de competir a nível mundial com a liberalização do comércio.
As medidas, de acordo com o Fnuap, são necessárias para aumentar as oportunidades de emprego e a produtividade que se pretendem, tendo em conta que a agricultura emprega 60 por cento de mão-de-obra em África e responde por 25 do produto interno bruto do continente.
Segundo a agência das Nações Unidas, melhorar o acesso às facilidades de crédito pelos jovens, estabelecer e operacionalizar fundos nacionais e regionais com vista a aumentar o seu capital empresarial deve constar das estratégias a serem adoptadas.
Outros caminhos a seguir são do investimento em sectores com alto efeito multiplicador de empregos, incluindo as áreas de Tecnologias de Informação e Comunicação, manufactura, agricultura e agro-indústria, por forma a gerar emprego e impulsionar o crescimento inclusivo.
No quadro das políticas a implementarem-se, os resultados do estudo, que ontem foi oficialmente apresentado, em Luanda, advogam pela criação de fundos de desenvolvimento para a juventude, para apoiar-se empreendedores em todos os sectores.
“Na verdade, há toda a necessidade de uma revolução de competências e edificar as estratégias continentais da educação, para que a África possa expandir as oportunidades de formação vocacionadas”, lê-se no documento.
O dividendo demográfico é, portanto, um fenómeno que ocorre num período de tempo no qual a estrutura etária da população apresenta menores razões de dependência (baixa proporção de crianças, adolescentes e idosos) e maiores percentuais de população em idade economicamente activa, possibilitando que as condições demográficas actuem no sentido de incrementar a qualidade de vida e reduzir os níveis de pobreza e desigualdades.